
“Vejo a Natureza como uma bela mulher, esplendidamente vestida, que anda sem se preocupar com as formigas em que pisa. Sou uma dessas formigas. Vou ser esmagado.”
(Hippolyte Taine)
Para Leninha.
Ivan Pessoa*
A poesia é carne. A filosofia é espírito. Enquanto a poesia nos faz crer a presença da mulher, a filosofia é a renúncia a tudo o que pulsa. Uma é língua. A outra, verbo. A poesia é a fêmea deflorando. A filosofia é o éfebo desfibrando-se homem. Ainda que se façam discordantes, pois que com interesses distintos, mais vale o fragmento de Heráclito de Éfeso que o desconhecimento, decerto porque: “ O diferente condiz consigo mesmo.” Que a diferença nos faça entender esta contenda.
Poeticamente toda mulher é um excesso de fogo que abrasa. Quanto mais poética for a mulher, maior o rastro de sua luminosidade. A mulher que teria ensejado o conflito entre gregos e troianos, seria tão poética que seu arauto, o cego Homero assim a descreve: “Quando Helena entrou, diante da visão de sua beleza, os velhos se levantaram.” A mulher, este fogo insinuando-se, é uma presença que desassossega, de modo que historicamente sempre esteve associada ao desmedido, àquilo que foge o controle. Em verdade, toda mulher é uma ameaça, porquanto a sedução arrefeça as exigências da razão, sobrepondo assim o encanto à prudência. Ao comentar o décimo segundo canto da Odisséia, Franz Kafka dirá que ainda que envaidecido de ter dobrado a sedução das sereias, tapando seus próprios ouvidos com cera, ainda assim Ulisses teria sido encantado com a presença imemorial daquelas míticas mulheres, com efeito, o silêncio daquelas beldades, antecipando-se às intervenções racionais do comedimento, desapercebidamente lhe acometeria.
O silêncio de uma mulher antecipa-se ao rigor lógico do intelecto, inutilizando, portanto, todo arranjo discursivo do cabedal de filósofos que nos pomos a ler. A mulher figura na tradição filosófica como uma ameaça à consecução dos projetos racionais, da fleuma metafísica, da clausura interior, significando, pois, aquela presença que implode o edifício harmônico da razoabilidade. Sócrates, que constantemente se queixava da postura ensandecida de Xantipa, certa vez dissera: “De qualquer maneira, case-se; se conseguir uma boa esposa você será feliz; se arranjar uma esposa ruim, você se tornará um filósofo.” A indisposição da racionalidade filosófica em face do apelo poético da mulher, abriria no imaginário ocidental a sessão reprovável da misoginia, aquela necessidade de diminuir a presença feminina a quase nada. Arthur Schopenhauer, misógino confesso, assim resumiria: “A mulher é um animal de cabelos compridos e de idéias curtas.” Curioso que Schopenhauer trocaria a presença encantadora das mulheres pela irracionalidade de Atma, seu cão companheiro, me fazendo crer irrestritamente na máxima de um moralista anacoreta: "O cão foi dado ao homem a fim de atenuar as conseqüências da criação da mulher.”
A filosofia, bem como o imaginário ocidental, sempre preteriu a mulher em nome da razão e sua rigorosa estrutura. Concebida a despeito da vigilância do pensamento, o arquétipo feminino sempre fora compreendido enquanto as insinuações letárgicas daquilo que embotaria a consciência, à maneira de um sono profundo. Tornar-se vigilante é arrazoar a realidade, deixar-se encantar é sonhar. O homem pensa e a mulher delira. O filósofo conceitua, mensurando inteligentemente a natureza, a mulher desvia-lhe os olhos. Dobrar os apelos do disfarce, do simulacro, das aparências e da sensualidade teria sido o afã mais corrente da tradição filosófica ocidental, o que implicaria na clivagem entre verdade e falsidade, eternidade e finitude. Ciente de todo este apanhado, o filósofo Nietzsche no prólogo da obra Para além de bem e mal, retrucaria: “A verdade é mulher.” Fácil depreender a partir daí a idéia de que a verdade bem como a eternidade; conceitos tresloucadamente buscados pela tradição filosófica, apenas seduziriam pavoneantes, sem jamais serem relevados efetivamente. A mulher, sedutora por excelência, é a verdade, o inteligível que se encarnando nos limites do corpo, fustiga, mas nunca se dá em plenitude, o que explica, por exemplo, a impossibilidade dos filósofos entrarem em consenso, afinal como racionalizar o que não pode ser explicado por meio de conceitos? Como a racionalidade pode açambarcar os mistérios, se há muito relegara a segundo plano o formigamento da sensibilidade? A verdade que é mulher, não pode ser conceituada, o que explica os desencontros da filosofia em seu afã. Resta ao discurso conceitual da filosofia pôr-se à cata de algo que seduz, adiando-se ad infinitum. Com destemor a poesia perde-se no corpo da mulher, despudorando-lhe os insinuantes esgares. O filósofo, incapaz de consumar-se em ato, deixa-se seduzir desafortunadamente, enquanto o poeta perde-se nos limites da carne para encontrar-se consigo mesmo. O poeta Luís Augusto Cassas que episodicamente teria conversado com Carlos Drummond de Andrade, assim teria escutado de sua voz aceira: “A eternidade é uma mulher que a gente não sabe o gosto.” Diferentemente do filósofo; que pretende arrazoar o eterno que não pode ser visto, nem a verdade que possa ser dita, o poeta sabe; como os íncubos, aqueles demônios que fustigavam as mulheres durante o sono da Idade Média, que nem tudo pode ser compreendido racionalmente, restando por seu turno a oferta lasciva da sensibilidade. A poesia desdobra-se nas coxas do indizível, nos seios do silêncio, enquanto a filosofia pondera-lhe a ausência.
Forjada no bojo do imaginário ocidental, esta concepção, radicada em uma dimensão filosófica, sempre associaria a mulher, aquele fogo insinuando-se, a tudo o que afastaria a prudência masculina da retidão. A paixão rebaixa, desvia. A racionalidade sobrepondo-se absoluta, liberta. Este dístico se faria tão presente nas compreensões de gêneros do Ocidente, que a partir de então se popularizaria a disseminação do mito de Lilith como o elemento característico do ser feminino. Lilith, como nos faz crer a leitura heterodoxa da cabala judaica, é tanto a primeira esposa de Adão, quanto a serpente que lhe indisporia o paraíso. Rebelando-se com Deus após ter descoberto sua condição coadjuvante no processo de criação e após ter se recusado a ficar debaixo de Adão na relação sexual, vagaria na Terra assemelhando-se a um demônio que aterrorizaria crianças e homens desaconselhados. Durante a Idade Média, afora os íncubos, os súcubos, e Lilith, a Igreja Católica disseminaria a idéia de que tudo o que fosse eminentemente volitivo, e por extensão feminino, seria igualmente demoníaco. Publicado em 1487, o Malleus Maleficarum ou o Martelo das Bruxas, à maneira de um manual, conteria passo a passo os elementos necessários para se reconhecer e se proteger do poder demoníaco das bruxas. Mas quem seriam as bruxas? Seriam mulheres, seres mais suscetíveis aos apelos rastejantes do erotismo, afinal como alegaria o livro: “a razão natural está em que a mulher é mais carnal do que o homem, o que se evidencia pelas suas muitas abominações carnais.” Não por acaso, em sua obra: Confissões, Santo Agostinho demonstraria remorso a par de seus inúmeros sonhos eróticos, poluções e pesadelos, associados que eram àquele impulso não redimido da alma humana, aquela reserva de animalidade tão infensa ao pudor inteligível da filosofia.
Enquanto a filosofia é a consciência refletindo a si mesma, a poesia é a nudez da mulher desviando o olhar. A primeira se desdobra na phronesis de Aristóteles, na prudentia de Tomás de Aquino e nos limites da reta razão. A segunda é o exercício do páthos, do êxtase, dos impulsos que nos acometem o entendimento, aquilo que nos faz calar. Diferenças à parte, o certo é que Heráclito estava certo, com efeito: “É terrível lutar contra os desejos do coração. Aquilo que ele deseja, há de consegui-lo, ainda que lhe custe à alma.” Em outras palavras é como se disséssemos: os impulsos animais sempre troçam das exigências lógicas da razão. A fêmea sempre devora o éfebo. A língua sempre dobra o verbo.
*Professor contratado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão (cassady68@hotmail.com)