quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A baba.


Por Ivan Pessoa*

Tudo o que escorre, liberta,
Um acesso de vida, desoculta,
O que antes estivera preso, o que resulta,
Num jorro que percorre a veia aberta.

Ao olho que vê, decerto desconcerta,
Porquanto o fluxo irrompa à linha devoluta,
Entre o dente e a carne, enquanto oferta,
Uma poça de sangue ante a prostituta.

Projeta-se a noite em pleno precipício,
Ocultando o acesso de vida, a que desaba,
Através do cálido orifício.

Como o impaciente diante o fim que nunca acaba,
Ou o avarento com o o que escorre em desperdício,
Decido pela língua nua e estanco o fluxo com baba.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Saciar tua sede.



Por Ivan Pessoa.*

Te quero como quem tem sede e a água mesma És Tu,
Fonte de preciosa Vida e eu todo precisão,
necessito-te Oásis por perto.
No deserto de Meu Ser então, És a América do Sul,
com qual dessemelhante beleza,
irradiante.
Tens a grandeza imponente,
de Ilhas que se descolam,insinuantes,
pretendendo o Sol por adereço,
aderente.
E Eu que te quero com uma sede excedente,
forjaria Teu pudor pelo lado do avesso,
para te ver Molhar minha língua mais saliente,
ver-te Ilha inteira de um longo orgasmo,
a Noite de Mil Estrelas como a um Cinema,
Até que de tanto te alcançar intimamente,
intimaria Tuas Horas para um Poema,
com gestos,línguas,músculos e Entusiasmo.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Onde tu escondes estrelas.

Por Ivan Pessoa*


Se Queres Do Amor Este Jogo,Que Agrega,
E Nos Diverte Os Olhos,Nos Preenche O Paraíso,
Deita-Te Inteira,O Corpo,Neste Piso,
E Acata Deste Jogo A Sua Regra.

Regra Número Um,Fecha Os Olhos,Abre A Boca.
Entrega O Corpo Ao Largo Deste Toque.
Abre bem Os Braços,E Deixe Que Provoque,
A Tua Nudez, Peça Por Peça,Roupa Por Roupa.

A Segunda Regra Vem Com Todas As Demais,
Não Quero Regras,Quero Ser Bem Mais,Breve.
Permita-me Devassar Esta Tua Tarde,Teu Pudor.
Que Tal Regras Desfazê-las?

Uma,Duas,Três,De Quatro Vezes As Casas Decimais,
Que Quero Adentrar Esse Céu Teu,Ultra.Leve,
Sobrevoar Planar Este Céu ,Acolhedor,
Ir Até Onde Tu Escondes Estrelas.

A boca.


Por Ivan Pessoa*


A boca se dá, no que se abre, tamanha.
Os olhos, petrificados, desacreditam a cena.
A despeito do pétreo olhar que vê, morena,
a boca pisca, entrecortando sua façanha.

Piscando através da fresta, a boca acena,
um esgar que oriça, feito a súbita aranha,
oriçada com pêlos, pelos quais condena,
o olhar que vê petrificado e lhe abocanha.

Como toda boca é o volume que se fecha,
o volume daquela boca invadia a sala mais bojuda,
abrindo-se progressivamente feito a brecha.

O olho cegando-se percebia-lhe mais carnuda,
à proporção que apontava a ponta da flecha,
no alvo daquela boca, avolumada de bocuda.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Voz.


Por Ivan Pessoa*


Não Dá Para Viver Longe Demais De Ti,
Não Há Vida Depois De Ti/
Não Me Vem O Ar Que Possa, A Bossa Roça No Toca-Discos Sem Tom/
Não Sabes O Quanto É Bom Estar E Estrear Em Teu Palco, E Te Despir/
Na Frente Do Espelho, No Chão Quente De Tanto Frisson.
És A Atriz De Minha Vida, A Avenida Que Me Leva Em Potencial.
Sou Um Próximo Passo, Um Braço Envolvido Com O Amanhã,
Não Vivo Sem Tua Presença, E Tua Sentença É Definitivamente Parcial,
Tendendo Para O Mais Forte Da Justiça Em Seu Afã.


Depois Das Horas, Alguns Minutos, Depois De Ti, Nada Além/
Se Não Ouço Essa Voz Que Tua, A Lua Não Acontece De Anoitecer/
Não Havendo Lua, Toda Rua Escurece E Eu Mais Teu, O Teu Refém/
Encosto Minhas Asas Num Canto, Acomodo Meu Ser,
Que Deu Para Ser Os Olhos Que Tua Luz Despeja.
Debaixo, Abaixo De Teus Caracóis, Teus Cachos São Mil Sóis,
E Eu, O Último Cristão, Padeço Ao Pagão Olhar Que Tu Corteja,
Quando Clarifica O Dia Com O Deus Que Há Em Tua Voz.

domingo, 12 de setembro de 2010

A floresta.




Por Ivan Pessoa*





Puxava-lhe com força os cabelos,
Com força igualmente lhe dera,
A porção mais máscula, os apelos,
De minha natureza mais fera.

Não há como detê-los.
Pensava comigo mesmo à espera,
De voltar a ser o que eu mesmo era,
Segundos antes de lamber-lhes os pêlos.

Tomado de inédito fervor plebeu
Desconhecia a mim mesmo, agora vejo:
Sua natureza exalava-se manifesta.

Desviado prosseguia, buscando o Eu,
Que perdera naquele inédito cortejo,
Certamente na greta profunda de sua floresta.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O animal humano.






Por Ivan Pessoa*

A história é a ruína dos humanos.
Alguns episódios, algumas derrotas.
Mas todas as lutas, com todas as rotas,
Decaem no mesmo buraco, no mesmo ânus.

Se pensassem os animais diriam: insanos,
Teus gestos, os mais idiotas,
Repetem-nos os gestuais, e teus decanos,
Rebaixa-nos com vis anedotas
.

E seguem ambos um curso dialético,
Um negando o outro, a despeito
Do que lhes entrosa.

Um mais cínico, exclama: caquético,
Mais bestial tu ficas, com efeito,
Animal tu és enquanto goza.

domingo, 5 de setembro de 2010

O beijo da Mulher aranha.


Por Ivan Pessoa*


Sólido feito a barra, lhe invadia/
Ela sussurrava ao meu ouvido: - Violenta!
Então em réplica lhe sentenciei: - Pois senta,
E orienta tuas pernas nesta noite fria.

Enquanto a noite lhe molhava a flor sedenta,
Dedava-lhe os fundos de sua lua com maestria,
Com dessemelhante desfaçatez ela me dizia:
- Pois agora me santificai com água benta.

De tão sólida natureza como era a barra,
Seu encanto abria-lhe a boca estranha:
- Porra!

Sabia-lhe a cachorra, a única que enquanto sarra,
Seu desejo de ser mulher torna-lhe aranha,
Aquela que depois de saciada, castra: - Pois agora morra!

sábado, 21 de novembro de 2009

À francesa.


Por Ivan Pessoa.

Ela chupava tão bem. Ela/
Acariciava com qual autoridade,
Sua voz chupando-me dizia: invade,
Ou arromba a janela.

Como um cão que se antepõe à cadela,
Ou a chuva que se sobrepõe à cidade,
Buscava-lhe com tais palavras: Donzela,
Suplico que não grite. Vossa majestade.

Feito um sitiante, pondo-me revoltado
Invadia os cômodos de sua nobreza,
Com a força bárbara do meu cajado.

Seus lábios chupavam-me a natureza,
No que lhe escapava seu centro molhado,
Arreganhado. Ou à francesa.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Soneto erótico ( O livro)

Por Ivan Pessoa

Com paciência igualmente, ela lia.
Sentada, abria a boca, pondo aberta,
A língua que lhe escorria,
A íntima oferta.

Enquanto a página parecia-lhe incerta,
Uma voz em mim mesmo incidia:
Interrompe a leitura e contraria,
Pondo-te à frente dela em alerta
.”

Alcançando sua mão pequena,
A voz em mim lhe entrosa:
- Deixai o livro, morena.

A língua que lhe fugia, curiosa,
Escapava-lhe à calcinha obscena,
Arregalada, prestes a encher-se de prosa.