
"Não construas estátuas aos vossos heróis, é melhor erguer estátuas às vossas vítimas." (Jean de La Bruyère)
Ivan Pessoa*
Nada é mais relativo ao poder do que a necessidade de conservá-lo, nem que seja arbitrariamente à força. Tudo o que for política é eminentemente esta necessidade, aquela sanha de poder em demasia. Como a vida é mesmo a implacável fuga dos segundos, é natural àqueles que governam, o usufruto deliberado do populismo que afixa imagens, cartazes e nomes em obras públicas. Como explicar, por exemplo, as sucessivas oito vitórias do cego e nada carismático Joaquin Balaguer à frente da presidência da República Dominicana a não ser por meio da deslavada utilização de um populismo que não mede esforços em se fazer onipresente? A conservação do poder implica na fixação da imagem de modo que ressalto Walter Benjamin: “Aquilo de que se sabe que logo não mais se terá diante de si, torna-se imagem.” A política, aquela eterna busca por poder ad infinitum, ciente de que todas as suas relações são notadamente instáveis, só conserva-se quando se torna imagem e para tanto, nada melhor do que a ancestral obsessão humana de petrificar-se em estátua. Toda e qualquer estátua encerra um apelo político, aliás, materializa-lhe. Logo após a morte precoce de seu protegido, o imperador Adriano teria ordenado a deificação de Antínoo, com a anexação de sua imagem em inúmeras estátuas em todo o império romano. A estátua de Antínoo por todo império é própria obsessão humana pela eternidade, aquele afã de não sucumbir às vacilações da vida. À proporção que Adriano exige a inscrição petrificada de Antínoo por toda a Roma, seu gesto quer fazer crer que enquanto imperador tudo lhe é permitido, inclusive dar-se às sandices. Pelo poder, por sua conservação e pela eternidade, toda imagem se justifica, afinal como dissera Virginia Woolf: “A estátua é sempre maior que o original.” Se em vida Napoleão Bonaparte resumia-se a um metro e sessenta e oito de altura, enquanto estátua, precisamente na Praça São Marcos sua grandeza superestima-se em dois metros e cinco centímetros de escultura. Se em vida Stálin era a personificação da sanguinolência, enquanto estátua sua mão insinuar-se-ia como a redentora. Kim Jong II e Saddam Hussein da mesma forma.
Não é difícil depreender que o apego ao poder e sua perene necessidade de conservação, implica por vezes na afixação da imagem, tão bem enfeixada na incrustação do estatuário. Diógenes, o cínico que tinha o hábito de pedir esmola às cegas estátuas de Atenas, alegando que estava educando-se para a recusa, decerto sabia que o poder seria tão empertigado quanto teatral. Com dessemelhante teatralidade, na Cidade do México, mais precisamente no Paseo de La Reforma, encontra-se uma estátua eqüestre de Carlos III, Rei da Espanha com os seguintes dizeres: “Este monumento está aqui apenas pelo seu valor cultural.” Cinicamente apenas Carlos III teria sido responsabilizado por um contingente incontável de mexicanos mortos, ou seja, mais do que todas as revoluções dos nativos daquela terra. Quantos mortos encerram-se por detrás da presença de bronze das estátuas? Demoro-me a pensar e descubro que a petrificação de uma cultura com seu respectivo estatuário, é proporcional à mácula de sangue que lhe escapa história afora, não é à toa, por exemplo, que o conjunto de estátuas em Roma seja o maior do mundo antigo, afinal aquele império se notabilizaria pelo seu excesso de violência. Roma teria um estatuário tão notável que o imperador Teodósio se encontraria em uma situação incomum no ano de 387 d.C com o chamado: levante das estátuas, episódio tão bem descrito por João Crisóstomo, então presbítero da Antióquia. Em tal levante, os populares se indispuseram com a quantidade de imagens pagãs do império, tão viris quanto pretensiosas. O certo é que o desejo humano por perpetuar-se, aquele desejo de eternidade lhe faz erguer a civilização, a cultura, com suas estátuas e esculturas e para tanto, para que se conserve, o poder só o faz se se confronta violentamente com seus inimigos ou com o tempo. Toda forma de poder, aquele anseio de eternidade é igualmente violento e bárbaro e no bojo desta barbárie inscreve-se em suas imagens, daí porque relembro Walter Benjamin: “Nunca houve um monumento de cultura que não fosse também um monumento de barbárie.” A bem da verdade as estátuas de Alexandre, César, Napoleão, Carlos III e Stálin e as que virão, encerram a mesmíssima dimensão, qual seja: todas são expressões tardias daquela necessidade humana de poder desmedido que se imagina para além do tempo que enquanto tal só se efetiva porque míngua o tempo dos demais. O sacrifício que se paga pela usura de alguns, tem o peso da pobreza, o suspiro da miséria, da inanição que escandaliza. André Gide estava certo, afinal: “Não existe acrópole que a onda da barbárie não possa atingir, arca que não acabe por afundar: agarramo-nos a destroços.” A lembrança dos grandes épicos, o cenho dos grandes homens nas praças públicas é a medida conseqüente de um banho de sangue, até porque como endossava Átila, rei dos hunos: “A erva não volta a crescer onde pisa meu cavalo.” Reescrevo-lhe: “A erva não volta a crescer onde toca um oportunista.” Quando penso em poder, recordo-me inevitavelmente da violência, aquele gesto que para se fazer vencedor, não mede esforços em sua empresa. Todo imaginário ocidental, no tocante à política, se pauta nesta dimensão, porquanto valha aquele pensamento de Karl Von Clausewitz: “A guerra nada mais é do que a continuação da política por outros meios.” E de fato eles estão em pé de guerra, ainda que os discursos façam crer o contrário. A bem da verdade, só vence nesta beligerante atividade chamada: política, aqueles que se puserem a postos como os olhos de bronze das estátua eqüestres de D.José I e Duque de Caxias.
Como naquela antológica estátua sonhada por Nabucodonosor em relato a Daniel que tem os pés de barro, portanto, insustentáveis, todo estatuário político brasileiro é qual a insustentabilidade daquele colosso, híbrido por excelência. Não é de admirar, portanto, que nos próximos anos algumas tontas estátuas se façam presentes nas praças públicas de nosso país, destarte, a sanha de alguns parlamentares dobrará os ardis do tempo. Como naquela prazerosa brincadeira de criança que ao manifestar a palavra: estátua, os participantes se esforçam em fazê-lo, ainda que custem alguns gracejos, façamo-nos crianças ao nos perguntar; quem provavelmente terá uma estátua de proporções épicas no centro de São Luís nos anos vindouros? Quem se arrisca a acertar?
*Professor contratado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão (cassady68@hotmail.com)





1 comentários:
...realmente
a transitoriedade
da existência
e a angustiante
certeza da finitude
tornam o homem
um animal desesperado
e carente de plenitude...
cada um usará os meios
que dispor
pra se perpetuar
a visão de mundo
a perspectiva de vida
o poder do momento
a conjuntura
a ética
influenciarão a lógica
a estética e a maneira
como cada um se infindará...
ante a fuga dos segundos
só a arte salva
o condenado à morte
da corrupção
e projeta sua memória pra'lém
associada à beleza
e não à crueldade
aquele abraço
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